sábado, 24 de setembro de 2011

Descaminhos da C&T Nacional



Wilson José Vieira
Instituto de Estudos Avançados, Centro Tecnológico da Aeronáutica, São José dos Campos, SP

Palestra apresentada na Mesa Redonda “Políticas de Ciência e Tecnologia: Reflexão sobre as atuais políticas de C&T implementadas pelas agências de fomento”, na Universidade Federal de Goiás, Goiânia, em 13 de julho de 2011


O sucesso do programa de pós-graduação brasileiro torna difícil apontar algo de errado. Não há como negar os avanços em C&T no Brasil. É fácil citar Petrobrás, Embrapa, Embraer, Fiocruz e CTA como exemplos de empresas e instituições de pesquisas, que mantêm a força desse País. E isso se deve, em grande parte, à formação de pessoal qualificado nos programas de pós-graduação de nossas universidades.

No entanto, se a pós-graduação no Brasil tivesse fomentado um pouco mais soluções para problemas um pouco mais brasileiros, talvez tivéssemos obtido resultados melhores para nossos índices de saúde, transporte, educação, habitação, energia, etc.

O grande problema em nossas universidades e institutos de pesquisas é que se estabeleceu a doutrina do currículo por metro. O critério de maior valor é o tamanho do currículo, ou o número de publicações. Isso faz com que o objetivo principal de professores e pesquisadores seja trabalhar para fazer grandes quantidades de publicações.

Esse fenômeno perverso é provocado por nossas instituições de fomento em C&T, que utilizam o número de publicações como critério principal de avaliação de professores e pesquisadores para concessão de bolsas de estudos, recursos financeiros e outros benefícios. Aqueles que têm os maiores currículos conseguem recursos. Além disso, programas de pós-graduação e departamentos inteiros também são avaliados por números de publicações.

Como o fomento é dado a quem publica mais, o objetivo fica sendo aumentar a quantidade de publicações. Não é educação, não é ensino, não é desenvolvimento científico ou tecnológico, não é desenvolvimento social ou econômico.

No Brasil, professores e pesquisadores são classificados em níveis e a progressão nesses níveis é dada pelos órgãos de fomento de acordo com o aumento do comprimento do currículo. Somente os membros dos níveis superiores têm o poder para fazer regulamentos e regras que representam maiores privilégios para quem tem metros e metros de currículo. São cargos, comissões, comitês, projetos, recursos financeiros, etc. São regulamentos e regras que impedem outros professores e pesquisadores, que não têm metros e metros de currículo, de pleitear seus pedidos, projetos e, até mesmo, de dar aulas ou orientar alunos. Não há avaliação de mérito em termos de contribuição para a sociedade brasileira, ou de reais desenvolvimentos científicos e tecnológicos.

Temos que valorizar nossa elite de grandes cientistas, de grandes professores, de grandes pensadores, de grandes homens e mulheres. Mas não apenas olhando para uma tabela de números. Nossas universidades e institutos de pesquisa têm que ter coragem e pensar um País melhor. Não podem se sujeitar a serem avaliadas quase que somente por números de publicações.

É imperativo que a classe política brasileira intervenha nesse mecanismo cruel que prejudica empresas, desmotiva jovens cientistas, premia mediocridades, desqualifica mentes brilhantes e promove C&T de segunda mão. Temos de libertar nossas instituições de fomento e permitir que executem políticas de C&T de governo, com seus profissionais de carreira treinados para isso.

Nossos professores e pesquisadores são a esperança de um verdadeiro desenvolvimento científico, tecnológico, social e econômico. Mas não sob essa política, cujo objetivo é apenas aumentar o número de publicações e muito pouco alinhada com as necessidades do Brasil.

1 comentários:

Gilson Luiz Volpato disse...

Acho que esse discurso, embora pertinente, está desatualizado, pois o cientista já não busca número de artigos faz tempo. Os índices sim continuam a existir. Atualmente a vertente é para a eficiência, onde o número de artigos entra no denominador (puxa para baixo).
Outra questão é que nossa universidade não tem tradição em gerar tecnologia. A ciência desenvolvida não pode ficar apenas à merce das tecnologias, mas conhecimentos de bom nível, sempre que possível, devem ser revertidos para solução de problemas da humanidade, inclusive do Brasil. Essa distinção é fundamental quando se discute tal assunto. O importante é que tenhamos ciência de qualidade e pessoas preocupadas em resolver problemas emergentes.