quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Segundo Manifesto Nacional aos Órgãos de Ciência e Tecnologia



Se concordar com os termos deste Manifesto, externe seu apoio, assinando-o.

Datas e locais das Mesas-Redondas para discussão do Manifesto.

Se preferir, leia a Versão Simplificada do Manifesto.


Lançado em dezembro de 2008, o Primeiro Manifesto Nacional aos Órgãos de Ciência e Tecnologia [1], embora assinado por 180 membros da comunidade científica e tecnológica do país, não mereceu qualquer resposta por parte dos órgãos de ciência e tecnologia. Além disto, neste período, não houve qualquer sinalização, por parte das agências de fomento, em particular, do CNPq, de que estejam dispostas a modificar suas políticas e práticas, políticas e práticas estas, conforme demonstradas no Manifesto, desastrosas para o desenvolvimento uniforme do país.

Com este Segundo Manifesto Nacional, tornamos público, mais uma vez, nosso repúdio a estas políticas e práticas. Cremos que a falta de bom senso e de justeza destas políticas e práticas tem, por base, uma grande confusão de conceitos feita por estas agências. As agências de fomento (CNPq, CAPES e demais Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa) confundem competência com produtividade.


Sobre competência, produtividade, grandes e pequenos centros de pesquisa

Competência é a quantidade de conhecimentos ou habilidades que um indivíduo possui. É, pois, um atributo imanente ao indivíduo. Produtividade, por outro lado, é a quantidade de produto produzido em um determinado tempo. A produtividade, portanto, depende fortemente dos recursos de que um indivíduo disponha para produzir. Dois indivíduos com a mesma competência (e o mesmo mérito) apresentam diferentes produtividades se dispuserem de recursos diferentes para sua produção.

Embora sejam conceitos diferentes, pode-se estimar a competência através da produtividade. De fato, a competência C é dada pela relação C = P / R, onde P é a produtividade e R são os recursos envolvidos. A sabedoria popular reconhece, na prática, esta relação, ao afirmar que “competente é o que produz mais com menos”.

Os critérios e métricas empregados pelas agências de fomento (CNPq, CAPES e demais Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa) não são critérios e métricas de competência, mas sim, de produtividade. Para estas, são mais competentes os que produzem mais, independentemente dos recursos que, por ventura, possuam para a produção. Não haveria qualquer inconveniente em desconsiderar-se o denominador R, ou seja, em avaliar-se a competência de indivíduos e de programas de pós-graduação exclusivamente por suas produtividades, se os recursos utilizados pelos indivíduos e pelos programas fossem iguais para todos. Caso isto não ocorra, a competência será avaliada de forma incorreta e injusta.

Por exemplo, o jamaicano Usain Bolt, recordista mundial dos 100 metros rasos com 9 segundos e 58 centésimos, certamente possui o atributo imanente de competência, quer corra em pista de atletismo, quer corra no mar, com água pela cintura. No entanto, ao correr no mar, sua produtividade cairá sensivelmente, de forma a ter uma produtividade muito inferior a de qualquer outro corredor que corra em pista de atletismo, apesar de continuar sendo o corredor com maior competência.

Não é sensato e justo, portanto, comparar-se o tempo do Usain Bolt correndo 100 metros no mar com o de outro corredor correndo 100 metros em pista de atletismo. Não é sensato e justo comparar-se a produtividade de um pesquisador com parcas condições de pesquisa, no pequeno centro onde atua, com outro com excelentes condições de pesquisa, atuante em um grande centro de pesquisa.

As agências de fomento julgam a qualidade e competência de um pesquisador unicamente pela quantidade de artigos científicos que este produza, ou seja, pela sua produtividade. Os artigos científicos representam o passo final no processo de desenvolvimento de pesquisas. Eles reportam à comunidade científica e tecnológica os resultados obtidos nas pesquisas. Portanto, quantas mais pesquisas desenvolvidas, mais artigos científicos publicados.

Normalmente, há duas formas de se desenvolver pesquisas científicas. Na primeira, o professor/pesquisador desenvolve todo o trabalho de pesquisa. É ele quem avalia as pesquisas em uma determinada área, avalia as contribuições de outros pesquisadores, propõe novas pesquisas, realiza todos os experimentos, analisa os resultados, corrige os erros, procura soluções, escreve os artigos, submete os artigos a periódicos ou congressos científicos, corrige os erros apontados pelos revisores, faz novos experimentos sugeridos pelos revisores, corrige novamente os erros, e assim por diante. É bem possível a um professor/pesquisador realizar suas pesquisas desta forma. No entanto, a quantidade de artigos produzida, sua produtividade científica, será muito baixa, por uma razão simples ― a atividade de pesquisa é apenas uma das muitas outras atividades onde ele é chamado a atuar. Um professor/pesquisador normalmente atua na área de ensino, lecionando disciplinas, e na área administrativa, atuando em coordenações, por exemplo.

Na segunda forma de se desenvolver pesquisas, o professor/pesquisador faz uso de mão-de-obra altamente qualificada. Faz uso dos alunos de pós-graduação (mestrado e doutorado), com formação em sua área de pesquisa, que ele possui sob sua orientação. Esta segunda forma permite ao professor/pesquisador desenvolver várias pesquisas simultaneamente e ser, portanto, muito produtivo cientificamente. Os alunos realizam todos os experimentos, analisam os resultados, corrigem os erros e assim por diante, cabendo ao professor/pesquisador orientar apenas os passos destes alunos. Em verdade, quantos mais alunos, mais pesquisas desenvolvidas, mais publicações.

Assim, se um professor/pesquisador, da área de engenharia elétrica, atua em uma universidade (ou Instituto de Pesquisa) que possua um programa de pós-graduação (mestrado e doutorado) na área de engenharia elétrica, consolidado ao longo de anos, ele terá oportunidade de ter alunos de mestrado e doutorado, na área de engenharia elétrica, que desenvolverão, em grande volume e extensão, suas pesquisas e que produzirão seus artigos, artigos estes, certamente, em quantidade e de qualidade. Ressalta-se que é necessário que o programa de pós-graduação seja na mesma área de atuação do professor/pesquisador, no caso, em engenharia elétrica. Caso contrário, seus alunos de pós-graduação não terão formação em engenharia elétrica e não terão os conhecimentos básicos desta área para poder desenvolver suas pesquisas. Neste caso, o professor terá que desenvolver, por ele mesmo, suas próprias pesquisas e, ao invés de ser ajudado pelo programa de pós-graduação, será ele quem ajudará o programa de pós-graduação, com suas publicações e orientações.

Igualmente, se este professor/pesquisador, da área de engenharia elétrica, atua em uma universidade (ou Instituto de Pesquisa) que possua um curso de graduação na área de engenharia elétrica, consolidado ao longo de anos, ele terá oportunidade de ter alunos de iniciação científica, na área de engenharia elétrica, que desenvolverão suas pequenas pesquisas e que podem também produzir artigos científicos de menor qualidade. Além disto, se atua em uma universidade (ou Instituto de Pesquisa) que possua grupos de pesquisa consolidados, na área de engenharia elétrica, ele terá oportunidade de interagir com outros professores/pesquisadores da área, permitindo-lhe desenvolver pesquisas conjuntas, dividindo o trabalho de pesquisa com outros professores/pesquisadores e, sobretudo, com os alunos sob a orientação destes, de forma a produzir artigos científicos de qualidade.

Uma universidade (ou Instituto de Pesquisa) que possua, portanto, um curso de graduação, grupos de pesquisa e um programa de pós-graduação (mestrado e doutorado) consolidados, ao longo de anos, todos na área de engenharia elétrica, é uma universidade (ou Instituto de Pesquisa) que possui um grande centro de pesquisa na área de engenharia elétrica. Esta definição do que é um grande centro de pesquisa em uma área do conhecimento está mencionada no artigo “As políticas equivocadas de nossas agências de fomento” [2].

Por outro lado, se um outro professor/pesquisador, de uma outra área do conhecimento, como, por exemplo, computação, atua em uma universidade (ou Instituto de Pesquisa) que não possua um curso de graduação, grupos de pesquisa e um programa de pós-graduação (mestrado e doutorado) consolidados, ao longo de anos, todos na área de computação, ele não terá oportunidade de ter alunos de iniciação científica, alunos de mestrado e doutorado e de colegas pesquisadores, nesta área, que desenvolvam suas pesquisas e que produzam seus artigos.

Uma universidade (ou Instituto de Pesquisa) que não possua, portanto, um curso de graduação, grupos de pesquisa e um programa de pós-graduação (mestrado e doutorado), todos na área de computação, é uma universidade (ou Instituto de Pesquisa) que possui um pequeno centro de pesquisa na área de computação. Esta definição do que é um pequeno centro de pesquisa em uma área do conhecimento também está mencionada no artigo “As políticas equivocadas de nossas agências de fomento” [2].

A definição de pequenos e grandes centros de pesquisa não tem, portanto, qualquer paralelo com o que poderiam ser grandes e pequenas universidades (ou Institutos de Pesquisa). Usualmente, uma universidade pequena (em tamanho) contém um pequeno número de grandes centros de pesquisa em apenas algumas poucas áreas do conhecimento. Uma universidade grande (em tamanho), por outro lado, possui um grande número de grandes centros de pesquisa em diversas áreas do conhecimento.

Faz-se necessário ressaltar que os atuais grandes centros de pesquisa são grandes não porque possuam algum mérito ou dádiva especiais, mas unicamente porque foram criados e desenvolvidos por pesquisadores de gerações passadas, durante décadas, e porque receberam fortes recursos humanos e financeiros das agências de fomento, também durante décadas, mesmo sendo, durante estas décadas, muito pouco produtivos quando comparados aos grandes centros de pesquisa internacionais. Já os atuais pequenos centros de pesquisa do país não possuem nenhuma destas duas características. São centros muito recentes, ainda em formação, usualmente localizados no interior de todas as regiões do país [2].

Julgar, de forma igual, a qualidade e a competência de professores/pesquisadores, através da quantidade de suas publicações, ou seja, por suas produtividades, sem levar em consideração os recursos desiguais de que dispõem nos diferentes centros onde atuam, é um erro grave. No entanto, é isto, lamentavelmente, o que fazem as agências de fomento, julgando de forma igual os desiguais, ferindo o artigo quinto da Constituição, em sua hermenêutica.

Professores/pesquisadores com melhores condições de pesquisa, ou seja, atuantes em grandes centros de pesquisa, são, obviamente, mais produtivos e são classificados, equivocadamente, pelas agências de fomento, como os professores/pesquisadores de maior qualidade e competência. Estes professores/pesquisadores ganham grandes vantagens, por sua pretensa “competência”, nas avaliações de suas propostas de pesquisa. Em verdade, todos os julgamentos realizados pelas agências de fomento são impregnados com a mesma política de considerar a produtividade do professor/pesquisador, sem levar em consideração suas condições de pesquisa. Vejamos alguns exemplos.


A Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq

O CNPq avalia os professores/pesquisadores do país para conceder-lhes Bolsas de Produtividade. Como mencionado no portal do CNPq na Internet [3], a Bolsa de Produtividade é “destinada aos pesquisadores que se destaquem entre seus pares, valorizando sua produção científica segundo critérios normativos”. Como o próprio nome da bolsa indica, estes critérios normativos não avaliam a competência do pesquisador, mas sim, a quantidade de produto (produção científica) produzida por este, ou seja, sua produtividade.

Assim, é natural que os professores/pesquisadores com mais recursos apresentem maior produtividade e, por conseguinte, abiscoitem estas bolsas. Não se estranha, portanto, o fato de que havendo mérito e competência em pesquisadores de grandes e pequenos centros de pesquisa do país, as Bolsas de Produtividade em Pesquisa de nível 1 do CNPq estejam concentradas apenas nas mãos dos pesquisadores dos grandes centros.

De fato, no início de 2010, por exemplo, havia 109 (N/NE/CO: 11; S: 14; SE: 84) Bolsistas de Produtividade em Pesquisa de nível 1 do CNPq, na área de computação [4]. Destes, três bolsistas, embora não fossem lotados em grandes centros, participavam de programas de pós-graduação de grandes centros. Estavam, portanto, ligados a grandes centros. Outros três bolsistas eram lotados em centros que possuíam programas de mestrado iniciados em 2002, 2000 e 1999. Todos os demais 103 bolsistas eram lotados em grandes centros de pesquisa na área de computação, com programas de mestrado e doutorado e grupos de pesquisa consolidados, ao longo de anos.


Os Comitês Assessores (CAs) do CNPq

O CNPq possui 48 Comitês Assessores em 48 diferentes áreas do conhecimento. Embora sejam de caráter consultivo, têm suas recomendações normalmente acatadas pela Diretoria Executiva do CNPq. Como os consultores ad hoc têm atuação limitada pelos Comitês Assessores, uma vez que seus pareceres e decisões são frequentemente alterados pelos membros dos Comitês Assessores, para fins práticos, estes Comitês acabam tendo a função executiva de decidir quem ganha e quem não ganha os recursos financeiros dos editais lançados pelo CNPq.

Além disto, quando algum professor/pesquisador discorda da decisão do Comitê Assessor e apresenta recurso, este é julgado, novamente, pelo mesmo Comitê que emitiu a decisão inicial. Assim, a decisão inicial é, normalmente, mantida.

Pelas normas do CNPq, descritas em seu portal na Internet [5], somente pesquisadores com Bolsa de Produtividade em Pesquisa de nível 1 podem eleger e ser eleitos membros dos seus Comitês Assessores. Assim, os Comitês Assessores são, em verdade, Comitês Oligárquicos, compostos, exclusivamente, por representantes dos grandes centros de pesquisa [6].

Como os Comitês Assessores têm papel fundamental no julgamento dos projetos de pesquisa submetidos pelos pesquisadores e na definição das políticas implementadas pelo CNPq, é natural que os resultados dos julgamentos dos projetos de pesquisa e que as políticas do CNPq favoreçam tanto os pesquisadores dos grandes centros de pesquisa quanto os próprios grandes centros de pesquisa do país.


Critérios usados pelo CNPq para julgamento de projetos

Para julgamento dos projetos submetidos pelos pesquisadores, o CNPq utiliza três critérios: (a) o mérito intrínseco do projeto; (b) a competência do executor (avaliada por sua produção científica); (c) as condições de infra-estrutura da instituição onde o projeto será desenvolvido.

Tanto o item (b) quanto o (c) são fortemente dependentes das condições de pesquisa de cada pesquisador. Por exemplo, se houver dois excelentes projetos, ambos com méritos intrínsecos comprovados, no caso de desempate, será escolhido o projeto que foi escrito pelo pesquisador com maior produtividade e com as melhores condições de infra-estrutura, ou seja, um pesquisador de um grande centro de pesquisa. Assim, projetos excelentes de pesquisadores de pequenos centros raramente obtêm aprovação. Os artigos “Bolsa de Produtividade: Qual o melhor corredor ― o que corre 100 metros em 10 segundos ou o que corre em 20 segundos?” [7] e “A quem se dirige o Edital Universal 2008?” [8] ilustram bem esta situação.


A política do CNPq de estabelecer um mínimo de 30% dos recursos para as regiões N/NE/CO

A política de se estabelecer um mínimo de 30% dos recursos de seus editais para as regiões N/NE/CO é, no mínimo, altamente contestável, por duas razões. A primeira razão deve-se ao fato de que, nestas três regiões, existem muitos grandes e consolidados centros de pesquisa que não necessitam de apoios diferenciados por parte do CNPq. Os diversos grandes e consolidados centros de pesquisa, nas diversas áreas do conhecimento, das grandes (em tamanho) universidades da região nordeste, por exemplo, têm necessidade de apoios diferenciados? Não conseguem disputar, de igual para igual, com os demais grandes centros do país?

A política do CNPq de considerar a produtividade do pesquisador, no julgamento dos projetos de pesquisa, acaba fazendo com que os 30% dos recursos dos editais acabem indo parar nas mãos dos grandes centros e dos pesquisadores dos grandes centros destas três regiões. Os pequenos centros e os pesquisadores dos pequenos centros destas três regiões continuam excluídos.

Por outro lado, o CNPq desconhece (ou quer desconhecer) o fato de que existem muitas regiões norte, nordeste e centro-oeste dentro das regiões sul e sudeste. Segundo o artigo da pesquisadora Marilene de Castilho Sá, fruto de uma intensa pesquisa e de análise de dados, publicado no portal da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) e comentado no artigo “As políticas equivocadas de nossas agências de fomento” [2], dentre as razões apontadas para as assimetrias entre as regiões do país, destaca-se a “concentração dos investimentos públicos federais que, historicamente, privilegiaram instituições onde os recursos humanos e a infra-estrutura já atingiram índices de capacidade elevados”. Acrescenta que “é importante destacar ainda que essas distorções também se repetem no interior de uma mesma região ou estado”.

A realidade por trás desta política de reserva de 30% de recursos é, portanto, a de que os pequenos centros de pesquisa e os pesquisadores dos pequenos centros de pesquisa de todas as regiões do país continuam à margem do apoio do CNPq. Esta situação já foi inclusive abordada no artigo “A quem se dirige o Edital Universal 2008?” [8].


O Edital de Jovens Pesquisadores do CNPq

O Edital de Jovens Pesquisadores é, igualmente, contestável, posto que a produtividade dos jovens pesquisadores é levada em consideração nos julgamentos dos projetos. Assim, os jovens pesquisadores contemplados acabam sendo os jovens pesquisadores ligados aos grandes centros de pesquisa do país, quer ligados através de seus ex-orientadores como bolsistas de pós-doutorado, quer ligados como professores substitutos ou como professores em outras instituições próximas das cidades onde estão estes grandes centros de pesquisa. Ligados aos programas de pós-graduação consolidados destes grandes centros de pesquisa, possuem todas as condições para terem maior produtividade que seus colegas dos pequenos centros de pesquisa. É interessante ler a carta “Resultado do Edital Jovens Pesquisadores do CNPq” [9], enviada pelo jovem professor/pesquisador Rodrigo Arantes Reis ao CNPq, a respeito da realidade que, de fato, ocorre na aprovação dos projetos deste edital.


O Edital do CNPq de Bolsas de Produtividade em Pesquisa para novos campi e novas universidades

O Edital de Bolsas de Produtividade para novos campi e novas universidades [10], lançado, pela primeira vez, em 2009, é, igualmente, contestável. Há vários novos campi e novas universidades localizados em municípios próximos de grandes centros de pesquisa. Muitos pesquisadores formados nestes grandes centros foram contratados para estes novos campi e novas universidades, mantendo os vínculos com estes grandes centros de pesquisa. Estes pesquisadores, por contarem e por continuar a contar com as condições de pesquisa privilegiadas existentes nestes grandes centros de pesquisa, certamente vão apresentar produtividade maior que seus colegas atuantes em novos campi e novas universidades localizadas em regiões distantes de grandes centros de pesquisa. Portanto, não há qualquer garantia de que as bolsas de produtividade concedidas por este edital venham, realmente, para estes últimos pesquisadores nem de que este programa possa representar um instrumento para atrair e fixar pesquisadores nestes locais menos competitivos.


Os Editais da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG)

Na avaliação de uma proposta submetida a qualquer um dos Editais de Pesquisador Mineiro (Edital no. 03/2007, Edital no. 03/2008, Edital no. 03/2009) [11], a pontuação atribuída ao projeto da proposta pode valer, dependendo de sua qualidade, 40 pontos, no máximo. Os demais 60 pontos são atribuídos à “qualidade do pesquisador”, qualidade esta, conforme os anexos destes editais, avaliada segundo a produtividade (produção científica do pesquisador).

Assim, qualquer pesquisador de um grande centro de pesquisa pode dar-se o luxo de submeter uma proposta que contenha um projeto de valor mediano, posto que o que vai decidir, com efeito, se ela será aceita ou não, é a produtividade do pesquisador. As propostas aprovadas serão, portanto, ao menos em sua maioria, as dos pesquisadores dos grandes centros ou daqueles pesquisadores que possuam fortes vínculos com os grandes centros (por exemplo, que co-orientam alunos destes grandes centros, participando de suas publicações, ou que atuaram, recentemente, nestes grandes centros).

Ademais, para todos os seus editais, a FAPEMIG concede pontuação extra às propostas submetidas por pesquisadores bolsistas de Produtividade em Pesquisa do CNPq. No entanto, como já mencionado, para conceder bolsas de Produtividade em Pesquisa, como o próprio nome indica, o CNPq avalia tão somente a produtividade do pesquisador e não sua competência. Assim, ao conceder pontuação extra aos bolsistas de Produtividade em Pesquisa do CNPq, a FAPEMIG favorece os pesquisadores mais produtivos, que obviamente estão nos grandes centros de pesquisa.

Ao confundir produtividade com competência, a FAPEMIG favorece, portanto, em todos os seus editais, os pesquisadores dos grandes centros de Minas Gerais, favorecendo, indiretamente, os grandes centros onde estes atuam. Além disto, a Fapemig lança editais de programas em que somente pesquisadores dos grandes centros (por exemplo, “Bolsa Conhecimento Novo”) e grandes centros de pesquisa (por exemplo, PACSS) podem participar [2].


As métricas da CAPES para avaliação dos programas de pós-graduação

Embora almeje, nas avaliações dos programas de pós-graduação, “estabelecer o padrão de qualidade exigido dos cursos de mestrado e de doutorado e identificar os cursos que atendem a tal padrão” [12], a CAPES falha em alcançar tal objetivo. A razão é simples ― as métricas de avaliação estabelecidas pela CAPES não avaliam a qualidade, a competência dos programas, mas sim, sua produtividade.

Por exemplo, a métrica de maior peso na avaliação dos programas de pós-graduação é a da produtividade média de seus docentes. Esta métrica é calculada através de uma fórmula simples ― a produtividade média P é dada pela equação P = NP / ND, onde NP é um valor ponderado, baseado no número de publicações obtidas pelo programa, e ND é o número de docentes do programa.

Desta forma, é natural que os programas com maiores recursos, ou seja, que os programas dos grandes centros de pesquisa, possuam maior produtividade média de seus docentes, em relação aos programas dos pequenos centros de pesquisa. Sendo assim, os programas de pós-graduação dos pequenos centros, mesmo competentes, serão sempre classificados, pela CAPES, como programas de baixo “padrão de qualidade”.

Como exemplo, seja um professor A, de um programa de pós-graduação consolidado, de um grande centro de pesquisa, que possua oito orientados, dentre alunos de mestrado e de doutorado, e seja um professor B, de um programa de pós-graduação recente, de um pequeno centro de pesquisa, que possua um único aluno orientado de mestrado. Se o professor A conseguir, com seus orientados, sete publicações qualificadas e o professor B conseguir, com seu orientado, uma publicação qualificada, surgirá uma situação bem interessante ― o professor mais produtivo, no caso o professor A, com sete publicações, não é o professor mais competente, posto que obteve uma relação “número de publicações / número de alunos” inferior a do professor B.

Será que a fórmula P = NP / ND não deveria ser modificada, de forma a incluir os diferentes recursos de pesquisa disponíveis aos diferentes programas, como, por exemplo, o número de alunos de mestrado e doutorado disponível em cada programa?

Uma outra métrica existente é a da valorização dos bolsistas de Produtividade em Pesquisa do CNPq. Os programas recebem pontuação extra, nas avaliações da CAPES, segundo a quantidade de seus docentes que possuam bolsas de produtividade. Assim, uma vez mais, os programas de pós-graduação já consolidados, programas dos grandes centros de pesquisa, recebem pontuação adicional por sua produtividade e não por sua competência.

Os critérios e métricas baseados na produtividade retiram dos programas a possibilidade de demonstrarem seus méritos e competências. Os programas de níveis 5, 6 e 7 não conseguem demonstrar suas competências, uma vez que são classificados como 5, 6 e 7 devido, exclusivamente, a suas produtividades. Por sua vez, os programas de níveis 3 e 4, com poucos recursos e consequente pequena produtividade, igualmente não conseguem demonstrar suas competências, permanecendo sempre nestes níveis de classificação.

Mais grave ainda, não existem métricas que avaliem a qualidade da formação dada ao corpo discente, verificando sua progressão ao encerrar seus estudos no programa. Em verdade, a qualidade na formação das gerações futuras é o que de mais importante justifica a existência dos programas de pós-graduação.


Considerações sobre bibliometria

Em geral, como mencionado, a competência de um cientista tem sido unicamente medida, quer direta ou indiretamente, pela quantidade de artigos científicos que ele publica. Mais recentemente, além do número de publicações, tem-se usado também outros índices, tais como o número de citações dos artigos, o índice H e outras variantes. No caso brasileiro, existe ainda o Qualis da CAPES, pretensa classificação da qualidade dos periódicos, usada para valorizar, em maior ou menor grau, as publicações de um indivíduo (ou grupo), segundo a qualidade dos periódicos em que foram publicadas.

O uso generalizado de indicadores bibliométricos para medir a competência dos indivíduos tem gerado diversas fraudes [14, 15]. Ademais, três importantes associações científicas ligadas à Matemática — International Mathematical Union, International Council of Industrial and Applied Mathematics, Institute of Mathematical Statistics — emitiram conjuntamente um relatório [16], alertando contra o mau uso de dados bibliométricos na avaliação de cientistas e da qualidade de pesquisa. O trecho a seguir, retirado do sumário executivo desse relatório, é bastante claro: “Dados de citações fornecem somente uma visão limitada da qualidade da pesquisa e os indicadores estatísticos, derivados de dados de citações, são frequentemente mal entendidos e usados de forma errada. A pesquisa é importante demais para que seu valor seja medido através de uma única ferramenta grosseira”.

É, portanto, importante manifestar-se contra o uso indiscriminado de qualquer índice bibliométrico como medida de competência de um cientista. Existem muitos exemplos, passados e recentes, de cientistas inegavelmente competentes, que, entretanto, não se ajustariam ao perfil da bibliometria vigente e que, por conseguinte, não receberiam financiamento das agências de fomento. Através de um título/pergunta, Marcelo Viana sugere, por exemplo, que Einstein não ganharia uma bolsa de produtividade do CNPq, caso trabalhasse nos dias de hoje no Brasil [17].

Há também exemplos de cientistas cujos trabalhos desenvolveram-se por décadas para que tivessem sua importância reconhecida. Talvez o mais famoso seja Gregor Mendel, pai da genética. Há, igualmente, cientistas que ficaram vários anos sem publicar para que pudessem se dedicar à solução de problemas de grande profundidade. Um exemplo siginificativo destes é Andrew Wiles, que demonstrou recentemente, após mais de 300 anos de tentativas dos melhores matemáticos e vários anos de trabalho pessoal, o famoso “Último Teorema” de Pierre de Fermat.

O valor absoluto dado atualmente à bibliometria prejudica o desenvolvimento da ciência de qualidade no país. Além de prejudicar pesquisadores de pequenos centros, prejudica, igualmente, pesquisadores de grandes centros que não se ajustem aos critérios bibliométricos de produtividade.


Conclusão

Embora as políticas e práticas das agências de fomento — políticas estas baseadas em produtividade — sejam excepcionalmente boas para os pesquisadores dos grandes centros e para os próprios grandes centros de pesquisa, elas são desastrosas para o desenvolvimento uniforme do país. Basicamente, o são por quatro motivos.

Primeiro, porque retiram dos pesquisadores dos pequenos centros e dos próprios pequenos centros o que, por competência e direito, lhes é devido.

Segundo, porque desestimulam fortemente a migração de professores/pesquisadores para os centros menos desenvolvidos do país e a permanência deles nestes centros. Qual será o professor/pesquisador que aceita construir, sem recursos das agências de fomento, as condições de pesquisa em um centro menos desenvolvido do país, sabendo que, por causa disto, será qualificado como incompetente por estas mesmas agências?

Felizmente, ainda há muitos destes professores/pesquisadores. Criam, com esforço e dedicação, do “nada”, as condições de pesquisa nestes centros e conseguem mantê-las, em meio a dificuldades consideráveis. É salutar ver, igualmente, a coragem e idealismo que possuem ao arriscar suas carreiras científicas em prol do crescimento das regiões menos favorecidas do país.

Há uma entrevista interessante com o Ministro de Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, no portal da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Esta entrevista é comentada no artigo “As políticas equivocadas de nossas agências de fomento” [2]. Nela, o ministro descreve sua relutância em criar, do “nada”, o centro de pesquisa na área de física, na UFPE, na década de 70, pois era-lhe bem mais fácil e cômodo integrar-se ao grupo da UNICAMP, onde já havia recursos materiais e humanos de qualidade para o desenvolvimento de sua carreira como cientista.

A entrevista é interessante por apresentar vários pontos em comum com relação às dificuldades que encontram os pesquisadores que se dispuseram a criar e desenvolver, na última década, novos centros de pesquisa no interior de todas as regiões do país. Em verdade, estes encontram dificuldades bem maiores, pois, ao contrário do que ocorreu com o ministro nas décadas de 70, 80 e, quiçá, 90, não dispõem de fortes estímulos, de apoios, de fartas verbas do CNPq, da FINEP, do BID e demais agências de fomento.

O terceiro motivo pelo qual estas políticas e práticas das agências de fomento são desastrosas é devido ao fato de que prejudicam o desenvolvimento uniforme do país. Sem a migração de professores, não é possível a criação de novos cursos de graduação e pós-graduação nos municípios menos desenvolvidos do país. Alunos destes municípios, sem condições financeiras, são, assim, impedidos de obter uma formação escolar de qualidade. Com isto, afeta-se seriamente o desenvolvimento social e econômico destes municípios e do próprio país.

É de interesse coletivo que as políticas governamentais sejam orientadas no sentido de proporcionar às comunidades de municípios no interior de todas as regiões do país, municípios estes que usualmente abrigam os pequenos centros de pesquisa, recursos cada vez mais próximos dos recursos disponíveis às comunidades dos principais municípios do país, que usualmente abrigam os grandes centros de pesquisa. É de interesse coletivo o desenvolvimento dos pequenos centros de pesquisa para que estes possam, assim, ampliar o número de cursos de graduação, de pós-graduação, de atividades sociais, de parcerias com entidades administrativas e empresariais e possam contribuir, cada vez mais e melhor, para o desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida das comunidades locais e regionais que os abrigam.

O quarto e último motivo pelo qual estas políticas e práticas das agências de fomento são desastrosas é devido ao fato de que elas, ao priorizarem fortemente a produção científica, deixam de priorizar o que, realmente, deveria ser priorizado ― a qualidade da pesquisa científica e tecnológica e, sobretudo, o desenvolvimento humano e social. Em verdade, perguntas deveriam ser feitas a respeito da adequação e propósitos destas políticas e práticas, tais como: (a) estas políticas e práticas incentivam a criação ou a consolidação das condições de pesquisa (cursos de graduação, de pós-graduação, de grupos de pesquisa) nos centros onde elas inexistem? (b) são de interesse para o país, para a região? (c) contribuem para a geração de empregos? (d) promovem a integração do país? (g) contribuem para aumentar de forma significativa o conhecimento científico e tecnológico? (h) contribuem para o aumento da qualidade de vida? [13]

Por fim, deixa-se claro que nem os pequenos centros nem os pesquisadores dos pequenos centros de pesquisa do país precisam da “caridade” das agências de fomento, por meio de tratamentos diferenciados, editais ou políticas especiais. Ao contrário do que estas agências querem sugerir, existe grande mérito e competência nestes pequenos centros. Provavelmente, até maior que nos grandes e consolidados centros de pesquisa. Basta observar que os pequenos centros de pesquisa do país, em meio a dificuldades materiais e humanas, fruto do descaso das agências de fomento, têm conseguido sobreviver e produzir resultados. O que os pequenos centros do país e seus pesquisadores precisam é de políticas respaldadas pela justiça e pelo direito por parte das agências de fomento, políticas estas que não confundam mérito, competência com produtividade, que não julguem de forma igual a produtividade dos pesquisadores, posto que possuem condições de pesquisa desiguais, e que visem o desenvolvimento humano e social, de maneira uniforme. Com políticas respaldadas pela justiça e pelo direito, e com representatividade igual a dos pesquisadores dos grandes centros nos comitês destas agências, os pesquisadores dos pequenos centros podem competir, de igual para igual, com seus pares dos grandes centros de pesquisa.

Considerando o exposto acima, nós, abaixo assinados, solicitamos aos senhores e senhoras, responsáveis pela política de C&T do País, a convocação de uma comissão, composta por professores e pesquisadores de institutos de pesquisa, representantes tanto de grandes centros quanto de pequenos centros, para organizar uma discussão e votação, pela comunidade inteira de C&T, dos seguintes assuntos:

  1. Abertura de ouvidorias nas agências de fomento, de forma a se estabelecer canais de comunicação entre estas e a comunidade científica;
  2. Extinção ou manutenção (neste caso, com a correção dos critérios para concessão e progressão de nível) das bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq;
  3. Alteração dos critérios para concessão de auxílios, de forma a que estes critérios avaliem, tão somente, a qualidade dos projetos;
  4. Revisão dos critérios estritamente quantitativos de avaliação da pesquisa e dos pesquisadores;
  5. Democratização na escolha dos membros dos Comitês Assessores do CNPq;
  6. Reestruturação das atribuições dos Comitês Assessores do CNPq, de forma a dar-lhes maior autonomia para definição dos critérios de suas áreas;
  7. Fomento às soluções para problemas nacionais, em todas as áreas do conhecimento, a partir de discussões amplas com a comunidade científica;


Este manifesto foi enviado, em 26 de setembro de 2011, à Fapemig, SecCT-MG, Governo-MG, CNPq, Capes, MCT, MEC e Presidência da República. Foi enviado, igualmente, a alguns políticos voltados à área de educação.


Se concordar com os termos deste Manifesto, externe seu apoio, assinando-o.


Referências

[1] Primeiro Manifesto Nacional aos Órgãos de Ciência e Tecnologia, disponível em http://democracia-e-transparencia-em-ct.blogspot.com/2009/06/manifesto-comunidade-e-aos-orgaos-de-c_08.html.

[2] As políticas equivocadas de nossas agências de fomento, disponível em http://democracia-e-transparencia-em-ct.blogspot.com/2009/09/as-politicas-equivocadas-de-nossas.html.

[3] Normas para as Bolsas de Produtividade em Pesquisa do CNPq, disponível em http://www.cnpq.br/normas/rn_06_016_anexo1.htm.

[4] Bolsistas de Produtividade em Pesquisa do CNPq na área de computação, disponível em http://plsql1.cnpq.br/divulg/RESULTADO_PQ_102003.prc_comp_cmt_links?V_COD_DEMANDA=200310&V_TPO_RESULT=CURSO&V_COD_AREA_CONHEC=10300007&V_COD_CMT_ASSESSOR=CC.

[5] Normas do CNPq para composição dos CAs, estava disponível, em 2009, em http://www.cnpq.br/cas/renovacao_cas_09.htm. Um resumo destas normas está disponível em http://www.andifes.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1353&Itemid=37.

[6] O CNPq e sua oligarquia, disponível em http://democracia-e-transparencia-em-ct.blogspot.com/2009/08/o-cnpq-e-sua-oligarquia.html.

[7] Bolsa de Produtividade: Qual o melhor corredor ― o que corre 100 metros em 10 segundos ou o que corre em 20 segundos?, disponível em http://democracia-e-transparencia-em-ct.blogspot.com/2009/06/bolsa-de-produtividade-qual-o-melhor_9945.html.

[8] A quem se dirige o Edital Universal 2008?, disponível em http://democracia-e-transparencia-em-ct.blogspot.com/2009/08/quem-se-dirige-o-edital-universal-2008.html.

[9] Resultado do Edital Jovens Pesquisadores do CNPq, disponível em http://democracia-e-transparencia-em-ct.blogspot.com/2009/07/resultado-do-edital-jovens.html.

[10] Edital MCT/CNPq no. 03/2009, disponível em http://www.cnpq.br/editais/ct/2009/003.htm.

[11] Editais FAPEMIG nos. 03/2007, 03/2008 e 03/2009 (Pesquisador Mineiro), disponível em http://www.fapemig.br/modalidades_de_apoio/editais/arquivos_dos_editais.php.

[12] CAPES ― Avaliação da pós-graduação, disponível em http://www.capes.gov.br/avaliacao/avaliacao-da-pos-graduacao.

[13] A casta dos superbacharéis, disponível em http://democracia-e-transparencia-em-ct.blogspot.com/2009/06/casta-dos-superbachareis_08.html.

[14] Integridade sob ataque: o estado da publicação acadêmica, disponível em http://democracia-e-transparencia-em-ct.blogspot.com/2010/06/integridade-sob-ataque-o-estado-da.html.

[15] Avaliação bibliométrica de pesquisadores: não é correta ... nem mesmo errada, disponível em http://democracia-e-transparencia-em-ct.blogspot.com/2010/04/avaliacao-bibliometrica-de.html.

[16] Citation statistics, disponível em http://www.mathunion.org/fileadmin/IMU/Report/CitationStatistics.pdf.

[17] Einstein, caso trabalhasse no Brasil nos dias de hoje, ganharia bolsa de produtividade do CNPq?, disponível em http://www.sbm.org.br/web//up/editor/File/ArtigoMarcelo.pdf.

domingo, 17 de outubro de 2010

Opiniões de um participante do I Simpósio Nacional de Avaliação Científica



Armando G. M. Neves

UFMG - Depto. de Matemática
1o vice-presidente da APUBH


O I Simpósio Nacional de Avaliação Científica (I SNAC) realizou-se em Brasília no dia 20 de setembro de 2010. Um grupo de trabalho permaneceu em Brasília no dia seguinte para elaborar um documento síntese das propostas dominantes apresentadas no evento. Tal documento pode ser acessado em http://www.sbfisica.org.br/v1/arquivos_diversos/avaliacao-2010/Simposio_Avaliacao_Cientifica.pdf. A seguir nos referiremos a esse documento como “documento síntese”.

O presente documento é a opinião pessoal de seu autor sobre o evento em si, do qual participou como simples debatedor, e sobre o documento síntese acima mencionado, ao qual acrescentarei algumas sugestões.

Algumas premissas

O autor deste texto considera a si mesmo um pesquisador, além de professor. Tal denominação se justifica por ser docente de universidade federal, participar de curso de pós-graduação na instituição, ter completado recentemente estágio de pós-doutorado no exterior, com bolsa do CNPq, e por ter uma lista de publicações não tão grande, porém séria. Obviamente seu currículo Lattes está à disposição para consultas e diz um pouco sobre a sua trajetória acadêmica e de pesquisa. Uma melhor avaliação de sua produção científica pode ser feita lendo seus trabalhos.

Nunca participou de qualquer tipo de fraude científica ou colaboração de fachada e só cita em seus artigos científicos trabalhos que considere relevantes para o entendimento do próprio. Embora nunca tenha publicado em revistas consideradas top e nenhum de seus artigos conte mais citações que os dedos de uma mão, ainda assim considera que faz trabalhos de qualidade. Espera que algum dia essa qualidade seja mais reconhecida pela comunidade científica.

Apesar disto, nunca foi beneficiário da bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq e nem do programa pesquisador mineiro da FAPEMIG. Possui uma coleção razoavelmente grande de pedidos de bolsa, financiamento a pesquisa e participação em eventos negados por diversas agências de fomento, mas também alguns pedidos aceitos. Acredita que se dispusesse de uma maior disponibilidade de verbas, poderia se sentir mais motivado e produzir com mais qualidade.

Acredita também que a missão primeira das universidades seja a de formação de pessoas. A pesquisa científica e tecnológica, assim como a extensão, devem ser encarados como subsídios para um ensino de alta qualidade. Vê com preocupação o fato de que a produção de muitos papers venha sendo utilizada como principal critério para contratação e ascensão na carreira acadêmica. Considera muito relevantes — e as pratica — outras atividades tais como produção de artigos de divulgação científica e didáticos e a participação nas entidades de cunho sindical. Infelizmente, tais atividades são pouquíssimo valorizadas dentro da academia, mas ainda assim as pratica. E continua fazendo pesquisa, pois isto lhe dá muita satisfação pessoal, além de contribuir para a formação de alunos e incrementar a cultura humana.

O I SNAC e o documento síntese

Primeiramente, avalio que o I SNAC foi um grande sucesso como evento. Desde sua preconização pela Sociedade Brasileira de Física, com o intuito de avaliar a maneira como nós cientistas estamos avaliando nosso trabalho, até o documento síntese, que avalio como bastante positivo em suas recomendações.

De acordo com os organizadores, os procedimentos adotados pelas agências de fomento à pesquisa podem ter “promovido mais o crescimento quantitativo do que a elevação da qualidade” da ciência produzida no país. Em minha opinião, tal desconfiança, para não dizer certeza, era compartilhada pela totalidade das pessoas presentes ao evento, tanto conferencistas, quanto participantes do debate.

Em diversos momentos houve críticas à “numerologia” praticada pelas agências de fomento nos julgamentos de pedidos de bolsas, projetos de pesquisa e demais tipos de auxílio para atividades científicas. Por “numerologia” entende-se aqui o uso como principal critério para concessão de auxílio a um pesquisador ou grupo, e não a outro, a simples contagem do número de trabalhos publicados pelo pesquisador ou grupo, ou variantes mais “elaboradas” dessa contagem. As variantes aqui incluem, por exemplo, contagem de citações dos trabalhos, excluindo-se ou não as auto-citações, cálculo de índice h ou outros assemelhados. Por mais elaboradas que sejam essas variantes, percebi que eram todas igualmente condenadas pelos conferencistas como instrumento principal em que se baseie qualquer avaliação de mérito. No sentido de evitar o uso abusivo de números, gostaria de destacar uma das conclusões de um importante documento. O “Citation Statistics” é um relatório produzido em 2008 por algumas associações internacionais da área de Matemática: a International Mathematical Union (IMU), o International Council of Industrial and Applied Mathematics (ICIAM) e o Institute of Mathematical Statistics (IMS) e está disponível em http://www.mathunion.org/fileadmin/IMU/Report/CitationStatistics.pdf. Logo nas primeiras páginas deste relatório lê-se que “a pesquisa é importante demais para que seu valor seja medido por uma única ferramenta grosseira”.

É importante ter presente o fato de que os comitês assessores das agências de fomento são submetidos a grande carga de trabalho, pois o número de pedidos a serem julgados é cada dia mais alto e o tempo disponível para os julgamentos é escasso. Nessas condições, obviamente há a tentação de se usar os critérios mais práticos possíveis e acaba-se caindo na tentação da “numerologia”. Julgo que o documento síntese é bastante bom a esse respeito, em suas propostas agrupadas sob os títulos REDUÇÃO DO NÚMERO DE PROJETOS A SEREM ANALISADOS e PROCEDIMENTOS E CRITÉRIOS DE AVALIAÇÃO.

Outro ponto que não pode ser esquecido é que a ênfase em critérios quantitativos para se ter “sucesso” nos pedidos de financiamento científico acabou por gerar reações anti-éticas por parte de membros da comunidade. Também neste ponto as recomendações do documento síntese agrupadas sob o título COLABORAÇÕES DE FACHADA E ÉTICA CIENTÍFICA são bastante suficientes.

Em minha opinião, a parte menos boa do documento síntese é a de título PROMOÇÃO DOS JOVENS E MAIS APOSTA EM QUALIDADE, pois contempla apenas duas recomendações. Acredito que o problema principal da pesquisa científica no Brasil, mas também no resto do mundo, é exatamente a aposta que foi feita na quantidade com consequente detrimento da qualidade. É preciso portanto apostar sim muito mais na qualidade, mas isto vai bastante além da promoção dos jovens pesquisadores. Neste ponto, mesmo correndo o risco de ser desagradável, é necessário ser polêmico.

Minhas sugestões

Embora não tenha feito uma contagem, pelos depoimentos que ouvi e pelo perfil da grande maioria dos presentes no evento, posso apostar que a grande maioria seja de pesquisadores com bolsa de produtividade do CNPq. Tal fato transparece por exemplo de algumas das recomendações do documento síntese, por exemplo nas I(a), (c) e (d), que somente se aplicam a bolsistas de produtividade. A recomendação III(a) fala inicialmente da necessidade de se confiar mais nos jovens e, logo em seguida, se refere aos bolsistas de produtividade que se encontram classificados abaixo de seu mérito. Pergunto-me se por acaso os autores do documento porventura se esqueceram de que nem todos os pesquisadores brasileiros possuem tal bolsa.

Não possuo dados precisos sobre a percentagem dos pesquisadores brasileiros contemplados pela bolsa de produtividade do CNPq, mas uma ideia do tamanho desse número pode ser deduzida do exemplo do curso de pós-graduação em cujo corpo docente figuro. Tal curso foi classificado na última avaliação da CAPES com conceito 5. O corpo docente teve 41 professores em 2009, dos quais 17 são bolsistas de produtividade. Todos os componentes do corpo docente do curso são pesquisadores, pois publicam com alguma regularidade trabalhos em revistas científicas com revisão por pares, mas somente 41% são bolsistas do CNPq. E estamos falando aqui de um curso bem avaliado, em uma das maiores e melhores universidades do país, sediado em uma capital do sudeste.

Creio em suma que a própria existência das bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq, com a grande concorrência que criou entre os pesquisadores pela possibilidade de obtê-la, seja um dos maiores obstáculos à produção de ciência com qualidade no país. De consequência, as recomendações para se obter mais qualidade não deveriam se basear nessas bolsas. Quais seriam portanto as minhas outras sugestões de recomendações às agências de fomento para que houvesse aumento de qualidade na ciência produzida no Brasil? Enumero em seguida algumas delas, inclusive as que enunciei durante minha fala nos debates do I SNAC:

1. Democratização dos conselhos assessores do CNPq
Os comitês assessores do CNPq são constituídos unicamente por bolsistas de produtividade. Em outras agências de fomento é quase certo que se a regra acima não é estrita, será ao menos válida em boa aproximação. Até certo ponto é natural que seja assim, uma vez que supostamente os bolsistas de produtividade seriam os pesquisadores de maior qualidade e experiência. Por outro lado, o fato de que se tenha percebido falta de qualidade na ciência produzida no Brasil, fato este que motivou a realização do I SNAC, parece exatamente depor contra os bolsistas de produtividade. Afinal, são eles os responsáveis por grande parte da pesquisa brasileira e portanto são também pelo menos co-responsáveis pela pouca qualidade. Sem querer propor regras de composição para os comitês assessores, parece bastante razoável que a composição destes fosse flexibilizada de modo a abrigar também pesquisadores menos “produtivos”. Mal isto não faria. Poderia pelo menos introduzir alguma boa novidade.

2. Aumento do volume de verbas para Ciência e Tecnologia
Essa é uma reivindicação histórica sobre a qual não é necessário se alongar muito. Basta lembrar que em termos de percentual do PIB as verbas para C&T no Brasil são bastante inferiores às de países com os quais gostaríamos de nos comparar.

3. Rodízio de financiamento
Alguns pesquisadores concorrem todos os anos nos diversos editais das agências de fomento e invariavelmente conseguem as verbas de que precisam, porque apresentam projetos com mérito. Vários outros — eu mesmo, por exemplo — têm o mérito de seus projetos reconhecidos, mas não conseguem receber o financiamento. Por anos a fio concorrem nos editais, sempre com projetos de mérito reconhecido, cada ano com mais realizações acumuladas a custo de grandes sacrifícios para obter poucas verbas. Com alguma sorte, após alguns anos, com boa parte do projeto já realizada sem o devido financiamento, recebem algum apoio. Às vezes, nem isto. A recomendação aqui seria a de, na ausência de verbas suficientes, levar em conta projetos já financiados em anos precedentes e conceder financiamentos para outros projetos de mérito e outros pesquisadores que não tenham sido financiados em anos anteriores.

4. Evitar concorrência desleal
Existem alguns editais reservados exclusivamente, ou com prioridade, para bolsistas de produtividade. Já me aconteceu de deparar com situações em que um pesquisador bolsista de produtividade, com muita experiência, tenha perdido o prazo para concorrer em um edital exclusivo deste tipo. Após isto concorreu com pesquisadores “menores” em edital aberto a todos, obviamente arrebatando recursos que poderiam ter sido dados a esses.

5. Cesta básica do pesquisador
Existem algumas necessidades básicas dos pesquisadores que, em muitos casos, não são contempladas. Não falo aqui de compra de equipamentos caros, por exemplo, mas compra de livros e verbas para intercâmbio e participação em eventos. Praticamente todo pesquisador tem necessidade disto. Aqueles que não possuem o grant associado às bolsas de produtividade nível 1 ou outro grant precisam sempre andar com o pires na mão procurando em diversas fontes algum tipo de financiamento para essas coisas. Minha proposta aqui é de extensão do sistema de grants. Não somente aos bolsistas de produtividade nível 2, como sugerido no documento síntese, mas a TODOS os pesquisadores com algum critério mínimo de qualidade.

6. Apoio aos pequenos centros de pesquisa
O Brasil é muito grande. A pesquisa começou em alguns grandes centros, mas hoje temos doutores espalhados por todo o país. Não só é importante apoiar os jovens pesquisadores, como bem apontado no documento síntese, mas também é necessário que se apoiem os novos centros de pesquisa, promovendo também, dentro do possível, a independência desses dos grandes e tradicionais centros dos quais se originaram. Existem alguns editais de agências de fomento focados nas regiões norte, nordeste e centro oeste de Brasil, mas acreditamos que a regionalização não é a solução para a problemática. Afinal, existem grandes e tradicionais centros de pesquisa nas regiões menos desenvolvidas, assim como há pequenos centros também nas regiões mais desenvolvidas.