Wilson José Vieira
Engenheiro Nuclear, Ph.D.
A pós-graduação no Brasil é um sucesso inquestionável. Exibimos com legítimo orgulho a formação de quase 10.000 doutores por ano, mais de 2% da produção científica mundial, a 13ª posição no ranking de número de artigos científicos publicados, Petrobrás, Embraer, Embrapa e outros exemplos de nossa grandeza em Ciência e Tecnologia (C&T). Muito bom. Mas, podemos fazer melhor?
Somos um país enorme. O Brasil possui inúmeros professores e pesquisadores excelentes que o engrandecem mundialmente. Temos milhares de excelentes alunos que vão contribuir decisivamente para nosso desenvolvimento. Temos milhares de homens e mulheres altamente qualificados formados para ajudar no desenvolvimento de nossa sociedade e especializados nas várias subáreas de subáreas de subáreas do conhecimento científico. No entanto, também temos inúmeros professores e pesquisadores doutores que orientam dezenas de teses semelhantes, que publicam centenas de artigos semelhantes, que muitas vezes têm muito pouco a contribuir para o desenvolvimento em C&T e para a solução dos problemas reais do País.
O problema se agrava quando são escolhidas linhas de pesquisa de interesse dos países tecnologicamente dominantes e de suas grandes editoras de periódicos internacionais. Nesse caso, é possível que ciência, feita e paga aqui, possa eventualmente se transformar em tecnologia lá fora e, eventualmente, poderíamos importar produtos com essa tecnologia, pagando caro, muito caro. No entanto, esses trabalhos interessam muito mais aos próprios autores, cuja motivação principal é pertencer à “Casta dos Superbacharéis” (CB, Opinião, 7/2/09).
Por um lado, essa casta, dos que possuem metros e metros de currículo, absorve grande parte dos poucos recursos financeiros para pesquisa do País para produzir mais metros e metros de mais currículo. Por outro lado, muitos dos que se propõem a fazer alguma coisa mais necessária são indeferidos quando não têm metros e metros de currículo. Por quê? Porque quem decide quem deve receber recursos e auxílios tem metros e metros de currículo. As propostas para projetos, bolsas e auxílios financeiros são avaliadas por esses especialistas que julgam também o mérito como critério de aprovação. No entanto, vejam só, concluem que a maioria das propostas tem mérito! Que ótimo! Naturalmente, leva quem tem o maior currículo.
Pergunto quantos “papers” sobre a dengue foram produzidos no Brasil? Quanto se pesquisa sobre o problema de favelas? Quantos pós-graduandos trabalham com saúde pública? Saneamento? Meio ambiente? Energia? Respondo: muito menos do que deveríamos, pois esses assuntos não dão tanto “paper”. Por exemplo, o caso da dengue: temos inúmeros cientistas brilhantes que poderiam ser valorizados por se dedicar apenas a este problema. No entanto, um grande pesquisador não poderia se dedicar a um problema maior, pois tem que publicar e publicar e publicar.
Enquanto fazemos pouco para solucionar nossos problemas, quantos trabalhadores qualificados não vão ser formados? Quanto mais dinheiro vai ser gasto nos doentes excedentes? Quanta educação não será dada? Quanta violência será mais cometida? Nossos gestores em C&T deveriam prestar contas à sociedade brasileira mostrando também melhorias nos indicadores sociais e tecnológicos e não apenas nos científicos.
A solução para essa situação começa com o combate à tirania do “currículo por metro” e à supremacia dos superbacharéis. É necessário discutir a extinção de bolsas de produtividade que incentivam o surgimento de castas; não premiar a prática do “currículo por metro” com verbas e cargos; construir mais capacidade no MCT, ME e nas agências de fomento para julgar valor e estabelecer prioridades para as propostas submetidas; instruir os comitês de avaliação a não determinarem suas escolhas pelo tamanho do currículo do candidato; fomentar soluções para problemas nacionais em todas as áreas do conhecimento; etc.
Os benefícios da adoção dessas soluções serão vistos rapidamente a partir da motivação dos professores e pesquisadores em geral. Cada um poderá competir com suas idéias. Em seguida, uma nova maneira de pensar o País em primeiro lugar irá contaminar nossa elite em C&T. Ao encontrarmos soluções para nossos problemas, certamente, vamos ter mais crescimento, mais investimento, mais salários dignos, mais saúde, mais educação, mais qualidade de vida.
Temos tido bastante sucesso com as recentes políticas de C&T, tanto federais quanto estaduais, mas podemos fazer muito melhor.
2 comentários:
Caro Otavio,
Creio que muito poucos estao satisfeitos com os mecanismos de avaliacao.
Nessas discussoes, o meu receio é sempre ir para um outro extremo qdo se
está já em um extremo. Ou seja, hj a situacao parece extremada ao se
valorizar apenas a tal qtidade de "metros" do CV, que gera um grande
circulo vicioso de centralizacao de recursos e coibição de recursos para
os jovens pesquisadores, por exemplo (dentre n outras coisas). Por outro
lado, creio que o CV é algo extremamente relevante, assim como acho
importante o mecanismo das bolsas de produtividade (saliento que eu *nao*
tenho).
Assim, sou da opiniao que falta uma visao de complementaridade das coisas,
incluindo aspectos qualitativos. Por exemplo, o CV do proponente pode nao
ter (ainda) n papers em journals mas o merito é reconhecido e a área é
importante para o desenvolvimento do País. Ainda, se tiver conexão com
empresas (por exemplo), ou seja, ter um viés tbem de aplicação (e não
apenas de pesquisa), ser valorizado tbem, e nao depreciado. Mas isso nao
deveria implicar em nao considerar bem o CV e/ou ser argumento para se
extinguir bolsas de PQ.
Portanto, o problema, ao meu ver, sao os criterios, e nao os instrumentos.
Finalmente, levanto tbem a questao dos usuais 30% dos recursos serem para
as regioes norte e nordeste ... como se no sudeste e sul nao houvessem
instituicoes e pesquisasores ainda emergentes. Para estes, a situacao é
ainda muito pior, pois têm que disputar o que sobra com a tal "casta" que
o artigo que mencionas fala.
Ahhh, claro, sem entrar no merito do Qualis, usado como base de avaliacao
dos CVs, que tem coisas bem ranqueadas nao sei como, e tem coisas
excelentes que sequer estao listadas !
[]s
Ricardo J. Rabelo
UFSC / DAShilityr
Concordo com os argumentos bem ponderados do Ricardo. É claro que o número de papers de um fulano não é irrelevante, mas por outro lado não pode ser o único parâmetro a ser usado. Há que se colocar no processo de avaliação alguma parcela qualitativa e procurar um meio termo entre o fomento extremamente seletivo de hoje e uma dispersão de verbas entre todos que se dizem pesquisadores.
A introdução de uma parcela qualitativa nos julgamentos dificulta bastante as coisas e até propicia maracutaias, mas não vejo como fugir a essa necessidade. Se não o fizermos continuaremos a incentivar a produção sem qualidade.
Uma discordância pontual com Ricardo é com relação às bolsas de pesquisa (que eu também não tenho). Acho que devem ser extintas porque estão retirando verbas que poderiam ser usadas para fomentar a pesquisa dos menos assistidos com as políticas atuais. Outro ponto é que, no caso de universidades e centros de pesquisa onde haja ensino, as bolsas de pesquisa desincentivam a dedicação ao ensino com qualidade ou a tarefas administrativas.
Armando G. M. Neves
UFMG - Depto. de Matemática
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