segunda-feira, 8 de junho de 2009

Para a ciência brasileira, quantidade vale mais que qualidade



Prof. Dr. Armando G. M. Neves

UFMG – Depto. de Matemática
1o vice presidente da APUBH – Sindicato dos Professores de Universidades Federais de Belo Horizonte e Montes Claros


O ministro da Educação Fernando Haddad esteve anteontem, 5/5/2009, em evento na Academia Brasileira de Ciências e divulgou dados sobre o crescimento da produção científica do Brasil. Segundo esses dados, nosso país passou da 15a para a 13a posição no ranking mundial de número de artigos científicos publicados.

Certamente há o que comemorar, mas é importante analisar com mais vagar esses números. O ministro avalia ainda que o aumento do número de mestres e doutores no Brasil, de 13,5 mil em 1996 para 40,6 mil em 2007, contribuiu para tal resultado. Concordo também com essa avaliação e acho que o país deve mesmo continuar investindo na formação de mestres e doutores. Mas ainda não chegamos ao ponto que considero importante.

Segundo reportagem publicada ontem, 6/5/2009, pela Folha de São Paulo em sua seção de Ciência, a qualidade dos artigos científicos publicada por brasileiros, qualidade essa medida pelo número de citações que esses trabalhos recebem por parte de outros artigos subsequentes, fica abaixo da média mundial em todas as 21 áreas analisadas. Isso é muito preocupante e obviamente nos remete para o desempenho do Brasil em testes mundiais sobre a qualidade do ensino básico.

Por exemplo, no teste PISA da OCDE aplicado em 2006 o Brasil ocupa uma das últimas posições entre os cerca de 60 países participantes, sendo muito superado por vários daqueles países que ultrapassamos em quantidade de produção científica. Um exemplo emblemático é a Coreia do Sul, que se encontra apenas uma posição acima do Brasil em termos de quantidade de produção científica, mas está entre os primeiros dez colocados no ranking do PISA 2006. A conclusão óbvia é que o aumento na quantidade de publicações científicas não está sendo acompanhado pela qualidade e, em consonância com o PISA, a grande quantidade de ciência produzida no Brasil é bastante inútil, pouco contribuindo para melhorar a qualidade do ensino aqui.

Falando ainda da Coreia do Sul, este pequeno país supera muito o Brasil também em número de patentes registradas, o que é uma outra medida indireta da baixa qualidade de nossa pesquisa científica. Segundo matéria publicada no Boletim da UFMG em 7/2/2002, o Brasil registrava 56 patentes por ano, enquanto nosso concorrente asiático chegava a cerca de 1500.

Nem toda pesquisa científica é aplicável em curto prazo e há muitos exemplos de pesquisa pura que só tiveram aplicações décadas depois de sua realização. Isto significa que o número de patentes registradas por um pesquisador não é uma boa medida da relevância de seu trabalho. Por outro lado, o número de patentes registradas por todos os pesquisadores de um país é certamente uma medida significativa do dinamismo de sua indústria e da qualidade de sua ciência.

Da mesma forma, o número de citações de artigos de um único pesquisador não mede necessariamente a sua relevância, pois existe enorme diferença entre números de citações de artigos de diversas áreas e também porque há pesquisadores que “negociam” citações com seus “compadres”, o que falsifica nesses casos a relevância do número de citações. Porém o número de citações de artigos de um país inteiro é certamente relevante. O Brasil estar abaixo da média mundial de citações por artigo em todas as 21 áreas pesquisadas é um dado que não pode ser menosprezado.

Outro dado interessante extraído também da reportagem da Folha é que o crescimento anual entre 2007 e 2008 do número de artigos brasileiros foi de mais de 50%. Por outro lado, o crescimento do número de mestres e doutores num período de 11 anos foi de 200%, o que daria, supondo-se crescimento constante, cerca de 10,5% ao ano. Como pode o número de artigos em um ano crescer percentualmente mais do que 5 vezes o crescimento percentual do número de pesquisadores? A resposta é clara: publiquem-se mais artigos, mesmo que não sejam tão bons.

Os números são consequência evidente da política brasileira de incentivo à pesquisa científica. O Brasil premia os pesquisadores com maior produção através de bolsas que complementam seus salários e com maior financiamento para suas pesquisas. Uma grande quantidade de pesquisadores não consegue ter acesso a essas bolsas e não consegue financiamento adequado para suas pesquisas. Cria-se então uma acirrada concorrência por verbas que acaba aliciando para o lado da pesquisa inútil vários pesquisadores que poderiam estar contribuindo de forma mais relevante para o país.

Também nas universidades, em que a pesquisa é um dos produtos importantes da instituição, mas não o seu carro chefe, ocorre a mesma coisa. Professores com grande produtividade acabam tendo maiores possibilidades de crescimento na carreira, em detrimento de outros menos “produtivos” em pesquisa, mas que podem ser excelentes em ensino. As novas universidades federais, quase todas localizadas em pequenos centros, continuarão pouco atrativas para os novos mestres e doutores que estamos formando, pois não lhes fornecerão grandes possibilidades em termos de pesquisa.

Enquanto nosso país continuar premiando individualmente seus pesquisadores por quantidade e não por qualidade continuaremos a amargar baixo nível nos rankings mundiais de qualidade da educação, pequena competitividade da indústria, endemias de dengue e febre amarela e tantos outros males. A solução para esses males passa pela atividade científica, mas não por aquela incentivada pelas políticas oficiais.

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